O rapé é uma medicina tradicional de muitos povos indígenas da Amazônia. É um pó fino, preparado com tabaco e as cinzas da casca de árvores, que se recebe pelo sopro nas narinas.

Entre os Yawanawa, no Acre, ele se chama nawê. Sem ele não há cerimônia: é por meio do rapé que se faz o contato com os espíritos, e é com ele que se forma o corpo do pajé.

O sopro tem o seu cuidado. Com o kuripe, cada um aplica em si mesmo. Com o tepi, outra pessoa sopra, e a tradição ensina que a intenção de quem sopra também é recebida.

Cada rapé leva o nome da árvore que dá as suas cinzas. Junto com o tabaco natural, ela define o aroma, a intensidade e o jeito de cada medicina.

Aqui está o que a tradição conta sobre cada um dos rapés da casa.

árvore de Breu Branco

Breu

Protium heptaphyllum

Este rapé é preparado com tabaco natural indígena e as cinzas do tronco da árvore de Breu Branco, mesma árvore que produz uma resina muito utilizada para defumações e limpezas espirituais.

Tradicional do povo Shawandawa e Manchineri, é um rapé moderado a forte, utilizado tanto para limpezas físicas em maiores quantidades como para acalmar a mente.

Cacau

Theobroma cacao

Preparado com tabaco natural indígena e as cinzas do tronco da árvore do Cacau selvagem amazônico.

Em comparação com outros tipos de rapé, tem a melhor capacidade de promover vigor e bem estar único, favorecendo também a limpeza física.

Traz força interior e resistência mental.

frutos do Cacau no tronco
folhas de Canela de Velho

Canela de Velho

Miconia albicans

Rapé forte feito com tabaco natural indígena e cinzas de Canela de Velho, usado pelos nativos da etnia Huni Kuin.

Promove a limpeza do corpo, trazendo calma, foco, concentração, harmonia mental, conexão espiritual, consciência corporal e vigor físico.

Caneleiro

Cenostigma macrophyllum

Feito com tabaco natural indígena e com cinzas da árvore que é símbolo de Teresina, o Caneleiro.

É um rapé suave no momento do sopro, ideal para iniciantes que não estão acostumados com o uso do rapé, pois é sentido progressivamente e após curto tempo sua força chega de forma contínua.

Oferece intenso relaxamento e bem estar, abrindo os caminhos para uma conexão espiritual e um estado meditativo.

Utilizado em doses maiores pode provocar uma limpeza para o corpo.

flores do Caneleiro
tronco da Copaíba

Copaíba

Copaifera langsdorffii

Este rapé é preparado com tabaco natural indígena e as cinzas do tronco da árvore de Copaíba.

Conhecida também como copaibeira e pau-d’óleo, a Copaíba é uma árvore de crescimento lento que pode passar dos 30 metros de altura e está presente na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga e na Mata Atlântica.

Do seu tronco, por pequenas perfurações, se colhe o óleo-resina que faz parte da medicina popular de todo o Brasil. Suas flores são melíferas e dão um mel de alta qualidade.

O rapé de Copaíba se destaca por ser muito aromático.

Cumaru

Dipteryx odorata

Feito de tabaco natural indígena e com as cinzas do tronco de Cumaru, usado pelos nativos da etnia Huni Kuin, Shawandawa, Kuntanawa e Katukina.

Indicado para ativação dos chacras da cabeça. Favorece a mente, diminuindo a agitação. Acalma e harmoniza os pensamentos, abrindo as percepções extrafísicas.

Aumenta a capacidade de tomar decisões lúcidas. Em doses maiores é capaz de trazer a limpeza física.

copa do Cumaru
frutos do Jatobá

Jatobá

Hymenaea courbaril

Feito com tabaco natural indígena e as cinzas da árvore de Jatobá, proveniente das etnias Shawandawa e Katukina.

Utilizado para força, com grande sensação física e capacidade purgante, com uma ardência maior do que os outros tipos.

Mulateiro

Calycophyllum spruceanum

Trata-se de uma forte medicina, feito de tabaco natural indígena e cinzas do tronco de Mulateiro, utilizado por diversas etnias como Huni Kuin, Shawandawa e Katukina.

Usado para fortes limpezas do corpo. Seu uso em trabalhos espirituais está associado à firmeza e à concentração da mente.

Pode dissipar os acúmulos de energia que geram tensões, liberando as sobrecargas físicas ou mentais acumuladas nos lobos direito e esquerdo da cabeça.

Ideal para aterramento, afasta a preguiça e traz o bom humor necessário para viver com saúde.

tronco do Mulateiro
flor do Mulungu

Mulungu

Erythrina mulungu

Preparado a partir de tabaco natural indígena e cinzas da árvore de Mulungu, proveniente das etnias Shawandawa e Katukina.

Possui efeito calmante, trazendo tranquilidade.

É suave e com pouca ardência, com relatos de ter um uso mais proveitoso em períodos noturnos.

Murici

Byrsonima crassifolia

Feito com tabaco natural indígena e as cinzas do tronco de Murici, é utilizado pelas etnias Huni Kuin, Shawandawa e Katukina.

Trata-se de um forte rapé para limpeza física, é capaz de dissipar energias acumuladas através de purgas do sistema digestivo.

Oferece vigor para viver e trabalhar sem panema (preguiça associada com desvios espirituais).

Traz relaxamento corporal e redução do stress.

frutos do Murici
árvores de Paricá

Paricá

Schizolobium amazonicum

Preparado com tabaco natural indígena e cinzas da árvore de Paricá, proveniente da etnia Shawandawa.

Rapé utilizado para força e disposição física, com boa capacidade purgante.

Usado para conexão com a ancestralidade, guias espirituais e o sagrado, despertando a cura interior.

Indicado para terapeutas, pois ajuda a promover um contato mais limpo com a energia do outro, aumentando a sensibilidade do diagnóstico.

Tsunú (Pau Pereira)

Platycyamus regnellii

Feito com tabaco natural indígena e cinzas da casca do Tsunú, árvore também conhecida como Pau Pereira, é utilizado pelos nativos da etnia Yawanawa, que descrevem seus diversos efeitos medicinais, relacionados com propósito geral do ser.

Promove a limpeza física e espiritual, acalma a mente, trazendo vigor para afastar a preguiça. Indicado para descarrego, limpeza e aterramento. Ajuda a conectar com a Mãe Terra.

É um rapé forte, indicado para pessoas que já possuem alguma experiência com a medicina.

tronco do Tsunú
tronco do Tsunú e folhas da Jurema

Tsunú com Jurema

Platycyamus regnellii e Mimosa tenuiflora

Feito de tabaco natural indígena e um preparado desenvolvido através da mistura da cinza de Tsunú com a cinza do tronco de Jurema, proveniente da etnia Fulni-ô, de Pernambuco.

Alia os efeitos do Tsunú com a capacidade da Jurema de favorecer sonhos lúcidos, a clarividência, a mediunidade e conexão com a força desta planta, reconhecida como uma planta mestra por culturas do norte e nordeste brasileiro, sendo utilizada por xamãs e líderes espirituais como uma das plantas de maior poder espiritual.

Fontes: Hélio Marcos dos Santos, O nawê (rapé) entre os Yawanawa: xamanismo e sociopolítica, dissertação de mestrado em Antropologia Social, Universidade Federal do Amazonas, 2024. Melquior B. M. Matos e Mônica da Silva Nunes, Medicina tradicional: terapia indígena no estado do Acre, Journal of Amazon Health Science, 2016. Textos de cada rapé: catálogo Floresta Luz, 2022. Copaíba: ficha Copaifera langsdorffii, Embrapa Agrobiologia. Arte do topo: Geenss Archenti Flores.

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